A estatística aparece em todo lugar: "setenta por cento dos planejamentos estratégicos falham na execução". O número vem do livro The Balanced Scorecard, de Kaplan e Norton, e desde então é citado como verdade revelada. Mas raramente alguém pergunta o que, exatamente, falhou — e por quê.
Nos últimos três anos, acompanhamos de perto 14 ciclos de PEO em empresas brasileiras de pequeno e médio porte. Onze deles descarrilaram antes dos seis meses. E quando a gente foi olhar caso a caso, descobriu que a história contada nos livros está, em grande parte, errada.
O mito: "a estratégia foi mal formulada"
A explicação convencional para o fracasso é que o time de liderança não definiu a estratégia direito. Faltou diagnóstico, faltou clareza nos objetivos, faltou alinhamento. É a história que consultoria adora vender, porque ela termina com um remédio simples: contrate alguém que saiba fazer a estratégia direito.
Só que, dos onze casos, nenhum deles falhou por má formulação. Em todos os onze, a estratégia documentada — a apresentação de slides com missão, visão, SWOT, objetivos BSC — estava razoavelmente bem feita. Dava para ler, fazia sentido, tinha métrica.
O documento estava bom. O problema era que, depois do offsite, ninguém olhava mais para ele.
O que realmente quebrou
Três padrões apareceram repetidamente. Vale a pena olhar cada um, porque cada um exige um remédio diferente.
1. Cadência morreu na semana três
O ritual de revisão semanal — aquele que deveria conectar plano de ação a resultado — sobreviveu, em média, três semanas. Depois disso, virou pauta de e-mail, virou check-in opcional, virou nada. Sem cadência, KPI vira hobby.
Em todas as empresas onde a cadência sobreviveu aos seis meses, havia uma pessoa específica responsável por convocar, preparar pauta e cobrar follow-up. Não o CEO — alguém um nível abaixo, com mandato explícito. Onde essa pessoa não existia, ou existia mas tinha outras dez prioridades, a cadência morria.
2. Plano de ação sem dono real
Toda iniciativa estratégica tinha um "responsável" no papel. Mas quando você ia conversar, descobria que esse responsável não tinha sido consultado antes do plano ser fechado. Ele "herdou" a iniciativa numa reunião onde ele estava de costas pro slide.
O resultado é previsível: prazo virou aspiração, entregável virou interpretação livre, e na primeira reunião de revisão (quando ainda existiam) começavam as desculpas. Não por má-fé — por desalinhamento estrutural.
3. Estratégia paralela à operação
O caso mais sutil é também o mais comum. A empresa segue um caminho A no documento estratégico (entrar em novo mercado, lançar produto X) e segue um caminho B no dia a dia operacional (atender cliente que pediu desconto, apagar o incêndio do mês). Os dois caminhos correm em paralelo, sem se cruzar. Quando, no final do trimestre, alguém abre o documento estratégico, descobre que a operação foi para outro lugar.
Isso não é falha de execução. É falha de governança: a estrutura de decisão da empresa não foi reconfigurada para refletir as escolhas estratégicas. As pessoas continuam respondendo aos mesmos incentivos, gerentes continuam medidos pelas mesmas metas operacionais, e o plano novo flutua acima da realidade como uma camada decorativa.
O que funciona, então?
Nas três empresas onde o PEO sobreviveu intacto até o fim do ciclo, o que mudou não foi a sofisticação do plano. Foi a infraestrutura ao redor dele:
- Cadência ritualizada, com pessoa dedicada a manter ela viva — não como tarefa extra, como parte explícita do trabalho dela.
- Plano de ação co-construído com o dono final. Se o dono não esteve na sala quando o plano foi escrito, o plano volta para reescrita.
- Realinhamento de governança: metas individuais foram ajustadas para refletir as escolhas estratégicas. Quem respondia por "atender clientes" passou a responder também por "atender só os clientes alinhados ao novo posicionamento".
Nenhuma dessas três coisas exige genialidade estratégica. Exigem disciplina e disposição para reorganizar incentivos. Que é, talvez, por que dá tanto trabalho fazer.
Se você está começando um ciclo de PEO agora e quer evitar essas três armadilhas, vale ler também o nosso artigo sobre como montar o Grupo de Trabalho — porque é ali, no GT, que essas três decisões são tomadas (ou abandonadas) sem ninguém perceber.
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